A nova versão da norma internacional de segurança e saúde no trabalho chega em março de 2027
A ISO 45001:2027 representa uma evolução significativa na gestão de SST, incorporando três pilares essenciais: saúde mental e riscos psicossociais, adaptação às alterações climáticas e diversidade e inclusão no trabalho. Para as empresas portuguesas certificadas, o período de transição de 3 anos (2027-2030) exige planeamento estratégico para evitar custos de última hora e garantir conformidade.
Calendário de Transição: Datas-Chave
2025-2026: Fase de Preparação
├── Julho 2025: Publicação do Committee Draft (CD)
├── 2026: Draft International Standard (DIS) disponível
└── Momento ideal para iniciar análise de lacunas
2027: Publicação e Implementação
├── Março 2027: Publicação oficial da ISO 45001:2027
└── Início do período de transição de 3 anos
2027-2030: Período de Transição
└── Todas as certificações devem ser atualizadas
Março 2030: Data Limite
└── ISO 45001:2018 deixa de ser válida
O Que Muda na Versão 2027?
Riscos Psicossociais Obrigatórios
A maior inovação da ISO 45001:2027 é a integração obrigatória da gestão de riscos psicossociais, incorporando as diretrizes da ISO 45003:2021.
O que avaliar:
- Carga de trabalho excessiva ou insuficiente
- Stress crónico e síndrome de burnout
- Assédio moral e violência no trabalho
- Insegurança contratual
- Conflito trabalho-família
- Falta de autonomia e controlo sobre tarefas
Dados em Portugal: Segundo a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), os riscos psicossociais afetam cerca de 30% dos trabalhadores portugueses, sendo uma das principais causas de absentismo e incapacidade temporária.
Metodologias recomendadas:
- Questionário COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire) – versão portuguesa
- Método de avaliação de factores de risco psicossocial da DGS
- Ferramentas da EU-OSHA adaptadas
Alterações Climáticas e Segurança Laboral
Portugal enfrenta desafios climáticos crescentes: ondas de calor mais intensas, incêndios florestais e eventos meteorológicos extremos.
Novos requisitos:
- Avaliação de riscos climáticos específicos (stress térmico, radiação UV)
- Protocolos de atuação durante alertas meteorológicos do IPMA
- Medidas preventivas em setores expostos (construção, agricultura, turismo)
- Planos de adaptação de instalações e processos
Setores mais vulneráveis em Portugal:
- Construção civil: exposição ao calor, esforço físico intenso
- Agricultura e viticultura: trabalho ao ar livre, radiação solar
- Turismo: trabalhadores em esplanadas, animação, guias
- Logística: armazenamento sem climatização, carga/descarga
Dados relevantes: Durante as ondas de calor de 2022 e 2023, Portugal registou aumentos significativos de acidentes de trabalho relacionados com stress térmico, especialmente na construção civil e agricultura.
Gestão do Stress Térmico
Protocolo obrigatório:
| Nível de Alerta (IPMA) | Medidas Preventivas |
|---|---|
| Amarelo | Revisão de disponibilidade de água, zonas de sombra |
| Laranja | Ajuste de horários (evitar 12h-16h), pausas extra |
| Vermelho | Suspensão de trabalhos pesados ao ar livre, teletrabalho quando possível |
Medidas técnicas:
- Índice WBGT para avaliação de risco térmico
- Hidratação obrigatória (mínimo 1L/hora em calor extremo)
- EPI adaptados (roupa respirável, proteção solar FPS 50+)
- Zonas de descanso climatizadas
Diversidade e Inclusão na SST
A norma reconhece que a segurança não é universal e exige adaptações para diferentes perfis:
- Consideração de diferenças fisiológicas (género, idade)
- Equipamentos e EPI adaptados a diferentes antropometrias
- Ajustes razonáveis para trabalhadores com deficiência
- Proteção específica para grupos vulneráveis
Participação Ativa dos Trabalhadores
De consulta formal a envolvimento real:
- Comissões de segurança com representação efetiva
- Canais de comunicação bidirecionais
- Participação em auditorias e inspeções
- Evidências demonstráveis de como as sugestões são incorporadas
Comparação: ISO 45001:2018 vs 2027
| Aspeto | ISO 45001:2018 | ISO 45001:2027 |
|---|---|---|
| Riscos psicossociais | Recomendado | Obrigatório com metodologias específicas |
| Alterações climáticas | Não mencionado | Análise obrigatória no contexto da organização |
| Stress térmico | Genérico | Protocolos específicos e índices WBGT |
| Diversidade | Implícito | Requisitos explícitos de inclusão |
| Participação | Consulta | Envolvimento demonstrável |
Plano de Ação para Empresas Portuguesas
Fase 1: Avaliação (2026)
✅ Análise de lacunas (Gap Analysis)
- Comparar sistema atual com novos requisitos
- Identificar áreas prioritárias
- Estimar recursos necessários
✅ Formação da equipa
- Responsável de SST: 16-20 horas sobre novos requisitos
- Chefi as intermédias: 8 horas em liderança saudável
- Todos os trabalhadores: 2-4 horas de sensibilização
Fase 2: Implementação (2027-2028)
✅ Atualização da avaliação de riscos
- Incluir fatores psicossociais (COPSOQ ou similar)
- Avaliar riscos climáticos específicos do local
- Documentar metodologias utilizadas
✅ Programas de bem-estar
- Programa de Apoio ao Colaborador (EAP)
- Protocolo de prevenção de assédio
- Medidas de conciliação trabalho-família
✅ Protocolos climáticos
- Sistema de vigilância meteorológica (alertas IPMA)
- Procedimentos para ondas de calor
- Equipamentos de proteção térmica
Fase 3: Certificação (2028-2029)
✅ Auditoria de transição
- Planear com antecedência mínima de 6 meses
- Realizar auditoria interna prévia
- Preparar evidências documentais e operacionais
Custos da Transição em Portugal
Investimento Estimado
| Dimensão da Empresa | Custo Total Estimado |
|---|---|
| Pequenas (10-50 trabalhadores) | 4.000 – 9.000 € |
| Médias (50-250 trabalhadores) | 18.000 – 45.000 € |
| Grandes (+250 trabalhadores) | 80.000 – 200.000 € |
Poupança por antecipação: Iniciar em 2026 pode reduzir custos em 20-35% vs. esperar até 2029.
Custos de Não Conformidade
Sanções da ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho):
| Tipo de Infração | Coima | Exemplo |
|---|---|---|
| Leve | 200 – 2.400 € | Documentação não atualizada |
| Grave | 2.400 – 24.000 € | Não avaliar riscos psicossociais |
| Muito grave | 24.000 – 240.000 € | Acidente grave por falta de protocolo de calor |
Custos indiretos:
- Perda de certificação e exclusão de concursos públicos
- Absentismo por stress: média de 20-35 dias por caso
- Rotação de pessoal: custo de substituição = 50-150% do salário anual
- Danos reputacionais e dificuldade em atrair talento
Legislação Portuguesa Complementar
A ISO 45001:2027 alinha-se com legislação nacional existente:
- Lei 102/2009: Regime Jurídico da Promoção da Segurança e Saúde no Trabalho
- Lei 7/2009: Código do Trabalho (alterações climáticas e saúde mental)
- Portaria 53/71: Regulamento das Condições Ambientais nos Locais de Trabalho
- Orientações da ACT: Avaliação de riscos psicossociais (2024)
Setores Prioritários em Portugal
Construção Civil
Riscos principais:
- Stress térmico (93% dos trabalhadores expostos ao ar livre)
- Coordenação de subempreiteiros
- Trabalho a grande altura em condições climáticas adversas
Ações recomendadas:
- App de monitorização meteorológica IPMA
- Zonas de sombra móveis em obras
- Formação de encarregados em primeiros socorros térmicos
Agricultura e Viticultura
Riscos principais:
- Exposição prolongada ao sol
- Trabalho em períodos de calor extremo (vindimas)
- Uso de pesticidas e equipamentos pesados
Ações recomendadas:
- Horários adaptados (início madrugada, pausa 12h-16h)
- Hidratação monitorizada
- Proteção solar obrigatória
Turismo e Hotelaria
Riscos principais:
- Trabalhadores em esplanadas e áreas exteriores
- Carga emocional (atendimento ao público)
- Horários prolongados e imprevisíveis
Ações recomendadas:
- Rotação de tarefas interior/exterior
- Programa de apoio psicológico
- Protocolos de gestão de stress
Integração com Outras Normas ISO
Para empresas com múltiplas certificações (ISO 9001, ISO 14001, ISO 45001):
Vantagens da transição integrada:
- Documentação partilhada (política integrada)
- Auditorias combinadas (poupança de 30-40%)
- Processos unificados de avaliação de riscos
- Visão holística: qualidade + ambiente + SST
Recursos e Ferramentas
Organismos Portugueses
- ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho)
- ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica)
- IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) – alertas meteorológicos
- DGS (Direção-Geral da Saúde) – orientações saúde mental
- APCER / SGS / Bureau Veritas – organismos certificadores
Formação Recomendada
- Curso de Auditor Interno ISO 45001:2027
- Gestão de Riscos Psicossociais (ISO 45003)
- Avaliação de Stress Térmico
- Liderança Saudável para Chefias
Perguntas Frequentes
Até março de 2030. Durante o período de transição (2027-2030), deve atualizar o sistema e realizar auditoria de transição.
Sim. Se planeia a certificação para 2027 ou depois, implemente diretamente a ISO 45001:2027, evitando duplo trabalho.
A ISO 45003 é uma norma de orientação (não certificável). No entanto, a ISO 45001:2027 incorporará requisitos obrigatórios baseados nela.
Embora a ISO 45001 seja voluntária, muitos requisitos coincidem com obrigações legais portuguesas. O incumprimento pode resultar em multas da ACT.
Checklist de Preparação
Contexto e Liderança:
- Análise de alterações climáticas no contexto da organização
- Compromisso da direção com saúde mental
- Política de SST atualizada (incluir bem-estar)
Avaliação de Riscos:
- Riscos psicossociais avaliados (COPSOQ ou similar)
- Stress térmico avaliado (índice WBGT)
- Riscos climáticos específicos identificados
- Diversidade considerada nas avaliações
Programas e Protocolos:
- Programa de apoio psicológico implementado
- Protocolo de ondas de calor ativado
- Protocolo de prevenção de assédio estabelecido
- Medidas de conciliação trabalho-família
Participação e Comunicação:
- Canais bidirecionais de comunicação ativos
- Evidências de participação real dos trabalhadores
- Comissões de segurança com representação equilibrada
Monitorização:
- KPIs de bem-estar e clima laboral definidos
- Sistema de alertas IPMA integrado
- Registos de incidentes psicossociais e climáticos
Conclusão: Antecipe-se à Mudança
A ISO 45001:2027 não é apenas uma atualização normativa — é uma transformação na forma como encaramos a segurança e saúde no trabalho em Portugal.
Benefícios da preparação antecipada:
✅ Redução de custos de transição em 20-35%
✅ Evitar sobrecarga de auditoria em 2029-2030
✅ Vantagem competitiva em concursos públicos
✅ Trabalhadores mais saudáveis e produtivos
✅ Conformidade legal antecipada com orientações da ACT
Ação recomendada: Comece já em 2026 com a análise de lacunas e formação da equipa. As empresas que liderarem a transição estarão melhor posicionadas para os desafios do trabalho do futuro.
A saúde e segurança dos trabalhadores portugueses dependem de ações hoje.



